quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sobre o locaute

Sei que todos estão acompanhando a movimentação da NHL e dos jogadores, e que já sabem que a Liga cancelou o calendário de jogos até o dia 24 de outubro. Para aqueles que não sabem, ou tem preguiça de ir atrás de notícias em inglês, um resumo básico, repetindo algumas coisas que já foram ditas anteriormente.

Então a Liga já cancelou jogos? Não teremos uma temporada completa, é isso?

Não exatamente. O calendário até o dia 24 foi cancelado, não os jogos. Isso significa que a temporada dificilmente começa ainda em outubro, mas os jogos podem ser condensados no futuro, com os mesmos 82 jogos em um menor espaço de tempo.

Mas esse cancelamento era mesmo necessário?

Mais ou menos. Os atletas sempre se dispuseram a continuar jogando sob os termos do antigo Acordo Coletivo de Trabalho, mas os donos preferem não começar a temporada sem uma negociação finalizada, por dois motivos.

O primeiro é que essa temporada sem Acordo estaria sujeita a uma paralisação a qualquer momento. Sem um termo que obrigue as partes a cumprir o combinado, tanto atletas quanto proprietários poderiam decidir cruzar os braços, e é melhor não começar a temporada do que ter uma paralisação no meio do ano.

O segundo é uma questão trabalhista, pelo risco de lesões ou algo parecido. Se um atleta se machuca em uma partida sem contrato algum, quem paga seu tratamento?

Falando nisso, e aqueles que já estavam lesionados antes do fim do antigo Acordo?

Aqueles jogadores, como por exemplo Chris Pronger, continuam recebendo salários. Além disso, o locaute não suspende o pagamento de bônus contratuais, portanto atletas como Zach Parise e Ryan Suter receberão esses bônus mesmo sem pisar no gelo.

Então vamos relembrar, pelo que os times e os jogadores estão brigando?

Dinheiro, claro. O antigo Acordo, assinado após o locaute de 2004, previa que os jogadores tinham direito a 57% do que ficou definido como Renda Relacionada a Hóquei, e hoje a NHL acha que o acordo foi muito generoso com os atletas.

Mas o que significa Renda Relacionada a Hóquei? É tudo que entra em nome da NHL, de camisas a ingressos?

Não, alguns itens são deduzidos. A Renda Relacionada a Hóquei (aqui chamada de HRR) é na verdade o saldo dentre a renda total e os itens deduzíveis.

O itens deduzíveis envolvem um cálculo confuso. Sobre camisas, por exemplo, apenas uma porcentagem daquele valor conta como HRR, e essa porcentagem varia dependendo se a compra foi feita no ginásio, em loja oficial ou loja comum. A porcentagem sobre as vendas de camarotes também varia, dependendo se a arena é de uso exclusivo ou compartilhado.

Os alimentos e bebidas vendidos em dias de jogam também contam, mas apenas 54%. O estacionamento também,  mas apenas o gerenciado pela franquia.

E tudo isso vai continuar sendo calculado da mesma forma?

Provavelmente não. Os donos querem aumentar a quantidade e a porcentagem dos itens deduzíveis, assim diminuindo a quantia definida como HRR. Os jogadores não aceitam isso, e dizem que, com essa forma de cálculo, eles só recebem metade do que entra nos caixas das franquias.

Apenas quando ficar definido o que é HRR é que as partes podem voltar a negociar a porcentagem dessa renda que será destinada aos jogadores.

Os jogadores querem continuar com a mesma definição de HRR, e com os mesmos 57%, mas aceitam uma redução para 52%. Os proprietários querem limitar o que é definido como HRR, e só aceitam pagar até 49% aos atletas, como nas outras grandes ligas americanas.

E quanto é pago nas outras ligas?

A NBA vai pagar entre 51,2% e 49%, a NFL em torno de 47%, e a MLB varia de 45% a 50%.

Mas vale lembrar que essas ligas geram muito mais dinheiro, e uma porcentagem menor de uma quantia menos acaba compensando. Além disso, a NHL tem concorrentes que as outras ligas não tem, por isso os jogadores tem melhores condições para negociar.

Mas se os salários estão vinculados à renda, como os proprietários podem alegar estar perdendo dinheiro?

A vinculação existe, mas é em relação ao HRR total da Liga, e não de cada franquia. Dessa forma, o Toronto Maple Leafs gasta 40% do que recebe em salários, enquanto o Phoenix Coyotes pode gastar 70%, que a média ainda dá certo.

A saída para as franquias mais pobres seria gastar menos em salários, mas a relação rígida existente entre teto e piso salarial impossibilita isso.

Em 2005, o teto salarial era de $39 milhões de dólares, e o piso de $21,5 milhões, ou seja, 55% do teto.

Em 2012 o teto foi de $64,3 milhões, e o piso de $48,3 milhões, 75% do teto salarial. Em sete temporadas, o teto salarial subiu 64,9%, enquanto o piso subiu 124%.

Assim, as equipes mais pobres (em geral, as mais fracas, e que tem problemas para atrair bons jogadores) tem que pagar salários mais altos do que podem para atrair jogadores que não valem tudo aquilo. Isso inflaciona os salários de quem realmente merece receber mais, e acaba trazendo problemas para todos.

E as franquias estão mesmo perdendo tanto dinheiro?

Não exatamente. As fontes são os próprios times e seus proprietários, que não são muito confiáveis.

Por exemplo, a Forbes aferiu que Washington Capitals e Florida Panthers tiveram prejuízos em torno de 7% cada um na última temporada. Esse cálculo não inclui o valor pago pelo uso dos camarotes não pertencentes às franquias.

O que ninguém nos conta é que os camarotes do Verizon Center, onde jogam os Capitals, são de propriedade de Ted Leonsis, que também é dono da franquia. Os livros contábeis dizem que a renda dos camarotes é de Leonsis, e que esses valores não estão no nome dos Capitals, mas na verdade é a mesma coisa.

Algo parecido ocorre com os Panthers, cujo dono, o grupo Sunrise Sports and Entertainment, também opera a arena BB&T Center. Ou seja, o valor da venda dos camarotes não vai para a "Sunrise dona dos Panthers", mas vai para a "Sunrise operadora da arena".

Então os proprietários estão todos errados e os jogadores todos certos, é isso?

Os proprietários com certeza estão errados, mas os atletas também não são santos. Como já explicado na TheSlot.com.br, os salários são calculados em cima da projeção de HRR para a temporada, em que pode ou não ser aplicada uma alíquota inflacionária de 5%.

Os jogadores decidiram por aplicar essa alíquota em cinco temporadas, e o teto salarial acabou por aumentar em média 10,8% por temporada, enquanto a HRR cresceu em média 7,1%. Isso não significa que os jogadores ganharam dinheiro em cima dos proprietários, pois a caução (garantia explicada no mesmo artigo de TheSlot.com.br) limitava os salários a 57% do HRR, mas já mostra que os atletas não foram sempre realistas em seus cálculos.

Mas como os proprietários pretendem reduzir a porcentagem destinada aos atletas?

A proposta da Liga é de reduzir essa porcentagem imediatamente, o que os atletas obviamente rejeitam. A contraproposta dos jogadores é de uma redução gradual na porcentagem, baseada no aumento gradual da HRR, o que acabaria por nivelar as coisas e manter os salários constantes pelos próximos anos.

De qualquer forma os jogadores vão ter alguma espécie de redução. Uma diminuição na porcentagem resulta em redução de salários, seja uma redução direta (diminuir o salário nominal, ou seja, quem recebe $10 milhões passa a receber $7,5) ou indireta (mesmo que o salário não seja reduzido nominalmente, no fim da temporada a caução come um pedaço do salário).

Como os envolvidos pretendem se sustentar durante a paralisação?

Mais de 100 atletas já assinaram contratos em ligas europeias, que oferecem salários bem razoáveis (e sujeitos a menor tributação). Mesmo entre aqueles que preferem não se arriscar vão conseguir se manter, graças a experiência adquirida no último locaute.

Os proprietários se consolam com o fato de o contrato da NBC ser válido mesmo com a paralisação, com o pagamento de $200 milhões sendo feito mesmo que não ocorra temporada (se isso acontecer a NBC não precisa pagar pelos direitos da temporada de 2020, mas as franquias são imediatistas e não se importam com isso agora).

Ainda assim, a NHL é a liga que mais depende da bilheteria na América do Norte. Enquanto as franquias de outras esportes tem no máximo 33% de sua renda oriunda de ingressos, na NHL essa dependência chega a 50%. Em algum momento a falta de jogos vai começar a pegar os proprietários pelo bolso, e, ao contrário de 2004, nenhuma franquia pode dizer que vai perder menos com o locaute do que com uma temporada normal.

Que papel as mídias sociais tem nas negociações?

Na prática, nenhum. Movimentações organizadas por torcedores até agora foram vergonhosas (menos de 20 pessoas apareceram para protestar no dia 15 de setembro, quando expirou o antigo Acordo), e não tem efeito nenhum.

Mas se o último locaute serviu para transformar o hóquei no esporte mais "interativo" dos Estados Unidos (a falta de cobertura da mídia esportiva tradicional influenciou a criação da maioria dos blogs de hóquei hoje consagrados), dessa vez são os jogadores que se aproveitam dos novos meios de comunicação para se expressar.

Krys Barch usou seu twitter para ventilar seus sentimentos regados a álcool, se perguntando se algum proprietário já se machucou por causa do esporte, imaginando os donos sentados em uma de suas cinco casas, ou em seus aviões bebendo o mesmo conhaque, enquanto tentavam consertar as burradas que fizeram, apagar os contratos que assinaram e simplesmente enfiar as mãos nos bolsos dos atletas para pegar 20% dos salários de volta.

Ah, calma aí. Nessa disputa de bilionários contra milionários, o cara que ganha a vida jogando hóquei vem reclamar de dinheiro?

Bom, a disputa é por dinheiro, mas também não é.

Tem algo de repugnante em ver a NHL propondo limites de cinco anos de duração de contratos, e assinar contratos de seis, sete ou treze anos no último dia do antigo Acordo. É ridículo que proprietários assinem contratos de $100 milhões enquanto pretendem pagar apenas $70 milhões.

Pior ainda (principalmente para os torcedores dos Red Wings) é ouvir Jim Devellano chamando os jogadores de "gado", nesse "rancho" que é a NHL.

Sete anos atrás a Liga reduziu salários em 24%, e agora pretende a mesma coisa. Os proprietários mostram seu desdém pela torcida ao proibir os atletas de fazer o que eles sabem, e conscientemente se utilizam do locaute como meio de negociação, e os atletas querem mostrar que não são meros funcionários.

E já dissemos, essa briga é menos "bilionários vs. milionários" e mais "bilionários vs. bilionários". Embora a votação a favor do locaute tenha sido unânime, é difícil acreditar que os proprietários das poucas franquias que dão lucro estão felizes com a paralisação.

A NHL já pensou em alguma solução que não seja um novo Acordo, para começar a temporada logo?

Rumores deram conta que a Liga considerou a possibilidade de usar jogadores substitutos até conseguir finalizar as negociações com o Sindicato de Jogadores.

Mas substitutos nunca dão certo. Os jogadores substitutos dos New York Giants afundaram o time da NFL em 1987, os juízes substitutos da NFL quase causaram uma guerra mês passado, e o Keanu Reeves dançou "I Will Survive" na cadeia.

Esse plano não tem chance de funcionar. Primeiro porque não é uma greve, e sim um locaute. Se fosse uma greve, os "fura-greve" poderiam ceder e ir para o gelo, mas a entrada de atletas substitutos abriria a possibilidade de centenas de processos de jogadores contra a NHL.

Em segundo lugar, como já dito, a NHL não é a única liga que um jogador pode disputar. Seja na Liga Continental (KHL) da Rússia, onde já estão Ilya Kovalchuk, Evgeni Malkin, Pavel Datsyuk e Alex Ovechkin (que já disse que pode continuar na KHL mesmo após o fim do locaute), na liga Sueca, Tcheca, ou alguma liga menor norte-americana, os jogadores tem opções, ao contrário de outros esportes.

E em terceiro lugar, dessa vez os jogadores estão unidos, dispostos a não ceder. Adrian Aucoin disse que todos já esperavam por isso. Os jogadores instruíram o Sindicato a não fazer uma proposta agora, e esperar  o próximo passo da Liga. Um jogador anônimo disse que "os jogadores estão unidos para arrancar o sorriso da cara de Gary Bettman".

E os jogadores, o que podem fazer?

"Podem fazer" não, já fizeram. Os jogadores do Montreal Canadiens (em Quebec), Calgary Flames e Edmonton Oilers (em Alberta) ajuizaram ações coletivas na justiça trabalhista, arguindo que eles não podem sofrer um locaute.

Em Quebec, o fundamento é que o Sindicato dos Jogadores não é reconhecido pela lei trabalhista local. Em Alberta, dizem que o locaute não pode ocorrer antes de uma tentativa de conciliação. A justiça de Quebec negou o pedido de tutela antecipada, e em Alberta as partes já foram ouvidas, e uma decisão deve sair nas próximas semanas.

Caso os atletas tenham êxito em alguns desses processos, eles não podem ser locauteados (?) e devem continuar recebendo salários normalmente. Isso não acaba com a paralisação nas outras cidades, mas já serve como mais uma vitória moral para os jogadores, uma vitória no tribunal para somar às vitórias na mídia.

Mas a divisão de renda não é a única questão. E a duração de contratos e tudo mais?

Não surgiram muitos detalhes sobre a duração de contratos e o tempo de vínculo de agentes-livres. Mas nos últimos dias as partes se encontraram para discutir assuntos menores, e daí já surgiram problemas.

Foi discutida a fórmula utilizada para calcular a HRR, e quem deve pagar pela presença de mais de um médico para jogos fora de casa. Também um papo ridículo sobre divisão de quartos de hotel, para os atletas ficarem sozinhos, e vai se ferrar todo mundo.

Tá brincando...

Não.

Ok, então... desisto.

Te entendo. Se tiver alguma dúvida, pergunte nos comentários. Boa sorte.

5 comentários:

CN Leafs Brasil disse...

Oi Guilherme ... Realmente essa história de locaute é muito complicada e marca uma briga em que, na minha opinião, todos só tem a perder!!! A liga fica mal vista na mídia, junto aos canais que possuem os direitos de transmissão e que tinham a NHL nas suas grades de programação. Os jogadores também tem suas culpas, mas se fossem liberados do locaute, estariam jogando, então, dos males o menor. Os donos dos times estão demonstrando que são anti-éticos, fechando contratos gigantescos antes do locaute e chorando no locaute ... Exemplo é o contrato de Parise e Sutter. Nós é que ficamos de fora das negociações, mas somos os principais afetados, pois nao podemos assistir aos jogos de nossos times e atletas favoritos ... E aqui no Brasil, ainda corremos o risco de a ESPN demorar ainda mais para transmitir os jogos ao vivo, quando a temporada voltar!

Adicional a isso tudo, eu estava aguardando demais pelo Winter Classic entre o seu Red Wings e o meu Leafs!!! Estou rezando para um acordo sair antes que o Winter Classic seja cancelado!!!

Parabéns pelo post.

Abraços
Christian - MapleLeafsBrasil.com

Humberto Fernandes disse...

Palmas para o nosso especialista em locaute :P

Unknown disse...

Guilherme,

Estou impressionado com o seu post... Muito, muito, muito bom mesmo!! Parabéns.

Sou um fanático pelo Red Wings desde 1997 e confesso que acompanhava muito mais as notícias da liga. Do Red Wings continuam intactas em meu dia atolado.

Tenho acompanhado superficialmente as atualizações sobre o Lockout, mas agora vi o tanto que não estava sabendo do assunto. Parabéns mais uma vez!!

Vamos torcer para voltar pelo menos no Winter game... Dia 4/01 estaria na terceira fileira para ver meu wings.. Quem sabe ainda não dá.. ai ai...

Enfim.. Aguardemos.

Abraço,
Bruno ScoTT

Felipe Caleffi disse...

Belo resumo de tudo que está acontecendo de repugnante mais uma vez com a liga!!

Tomarei a liberdade de vincular esse link com a galera do Ducks, pois lá tenho explicado pro pessoal as dúvidas pontuais de cada um, e aqui você faz um belo apanhado de toda a situação.

Abraço
Felipe Caleffi

andre_vedder disse...

Pessoal ja vi que gostam de ver NFL, eu fiz uma aplicação para android aonde indica aonde voces podem ver os jogos na televisão.
Para quem quiser experimentar basta fazer dowload aqui : https://play.google.com/store/apps/details?id=com.wSportSat&feature=search_result#?t=W251bGwsMSwxLDEsImNvbS53U3BvcnRTYXQiXQ..

não são só jogos da nfl tem tambem outros desportos.