sábado, 14 de julho de 2012

Atenção, creuzebek

Já vai começar a baixaria. Como todo mundo sabe, o atual Acordo Coletivo de Trabalho (CBA, na sigla em inglês) entre NHL (leia-se: Liga e donos de times) e Sindicato dos Jogadores (NHLPA) acaba em setembro, então um  novo Acordo tem que ser negociado até lá.

O primeiro encontro formal entre as partes foi hoje, e a NHL já apresentou sua proposta. Aqui vão os principais pontos, com alguns comentários.

1º - Reduzir a porcentagem das rendas relacionadas ao hóquei (HRR) destinada aos jogadores para 46% (dos atuais 57%)

Para entender, é bom ler meu artigo na TheSlot.com.br explicando como é calculado o teto salarial. Se você é preguiçoso, resumo: soma-se tudo o que foi arrecadado com a NHL (venda de ingressos, camisas, bonés, contratos de TV etc), e os jogadores tem direito a uma porcentagem dessa receita.

Esse é o modo básico utilizado também na NFL e na NBA, ligas que passaram por breves locautes em suas últimas rodadas de negociações. Ambas conseguiram reduzir essa porcentagem para atletas para 50%, então todos sabiam que a NHL iria brigar por um número similar.

Ainda não temos detalhes, mas informações dão conta que a Liga também pretende modificar a base de cálculo, ou seja, redefinir o que caracteriza HRR, o que obviamente reduziria esse montante. Assim, a proposta é basicamente uma fatia menor de um bolo menor.

Para os donos: Óbvio, mais lucro. Várias franquias alegam estar perdendo dinheiro, e a despesa mais fácil de cortar são os salários de jogadores. A proposta nada mais é do que uma maneira dos donos se protegerem de si mesmos e de planejamentos mal feitos. Eles tentaram isso oito anos atrás, repetiram os erros e precisam tentar corrigir de novo.

Para os jogadores: "Fuck you", franquias. São os jogadores que fazem qualquer esporte, e é para eles que o dinheiro tem que ir. Os empregados não deveriam ter que pagar pelas burradas cometidas por seus empregadores, e atletas são ao mesmo tempo funcionários e produtos.

Tomem por exemplo o proprietário do Minnesota Wild, Craig Leipold, que em abril disse que a franquia passava por problemas financeiros, ainda que tivesse melhores patrocínios e as arquibancadas estivessem cheias. "O problema não é a entrada, mas sim os gastos. E os maiores gastos são com os salários". Quatro meses depois, o time de Leipold contratou os dois melhores agentes-livres por $196 milhões de dólares.

Isso sem considerar o novo contrato com a rede NBC, que paga à Liga $200 milhões por temporada (enquanto o antigo contrato era de graça), além de outras novas fontes de renda (aumento no número de pacotes GameCenter, por exemplo).

Os proprietários tem que escolher, ou (a) se declaram pobres e se comportam como tal ou (b) continuam gastando horrores ($5,25M/ano por Dennis Wideman, proposta de $7,5M/ano para Shane Doan) e calam a boca. Não pode ser os dois.

2º - Dez temporadas antes do jogador se tornar agente-livre irrestrito (UFA)

Forma de vincular o jogador à franquia por mais tempo. Pelo antigo acordo (o pré-locaute), a maioria dos jogadores se tornava UFA pela primeira vez aos 31 anos de idade. O acordo expirado permitiu que isso ocorresse aos 27 anos.

Isso mexe um pouco com a estrutura financeira dos times, mas afeta principalmente os atletas. Via de regra, as negociações contratuais antes do jogador virar UFA acabam resultando em contratos abaixo do valor do mercado, afinal outras equipes não irão interferir e inflacionar o salário do jogador. Assim, a primeira oportunidade como UFA é efetivamente a primeira chance de ganhar algum dinheiro, com esses contratos normalmente muito acima de um valor razoável.

Para os donos: Manter o vínculo o maior tempo possível por um salário o mais barato possível, esse é o grande propósito da proposta.

Para os jogadores: não é um problema para jogadores norte-americanos, mas pode abalar as relações com europeus, principalmente russos, cada vez mais atraídos pela KHL local. O atleta teria que se virar por 10 anos até receber um aumento real de salário, enquanto a liga russa pode oferecer dinheiro fácil e livre de impostos.

Outro efeito colateral pode ser a cópia do modelo utilizado por muitas equipes da liga de beisebol, que também utiliza o tempo de carreira como base para ditar os salários. As equipes podem ficar receosas em lançar garotos promissores muito cedo e os perderem para o mercado a longo prazo. Muitos bons jogadores chegariam à NHL apenas acima dos 20 anos, acabando com a febre de adolescentes que toma conta da liga.

3º - Primeiro contrato com duração de cinco anos, aos invés dos três anos atuais

Na verdade essa proposta foi apresentada como a 5ª, mas está ligada à anterior. Hoje todos os primeiros contratos tem duração de três temporadas, podendo ser menor caso o jogador assine com mais de 22 anos. A proposta também visa manter o atleta por mais tempo com salário reduzido.

Os atuais três anos cobrem a fase inicial de desenvolvimento do jogador, e normalmente atingem um ano de atividade em ligas juvenis e dois anos em ligas profissionais (NHL ou AHL), e o jogador já recebe um aumento em seu novo contrato. Os propostos cinco anos fariam com que um jogador que já está jogando profissionalmente há algum tempo continue recebendo como juvenil.

Para os donos: Mais uma vez, a idéia é reduzir o custo pelo maior tempo possível.

Para os jogadores: também pode afastar jogadores europeus. O atleta recebe salário de juvenil por cinco anos, depois continua com salário baixo por mais cinco? Não, obrigado.

Mas essa proposta (ou algo próximo disso) tem alguma chance de passar, afinal os representantes da NHLPA são veteranos que podem não pensar nos mais jovens.

4º - Limitação de duração dos contratos, por no máximo cinco temporadas

Essa é uma proposta boa para a liga como um todo, evitando que metade dos atletas fiquem vinculados ao mesmo time pela vida toda. Também faz com que o dia-limite de trocas e o 1º de julho voltem a ser interessantes.

A NHLPA deve fazer uma contraproposta em torno de oito anos de contrato, mas cinco temporadas me parecem mais razoáveis. E essa duração é condizente com a regra estipulada nos casos como o de Ilya Kovalchuk, já que apenas os cinco anos mais "caros" do contrato são levados em conta para cálculo do impacto no teto salarial.

Para os donos: Mais uma maneira de se proteger, mas dessa vez com um bom propósito. Ninguém quer ver uma franquia afundando porque deu um contrato de 15 anos a um goleiro feito de vidro (valeu, Islanders), e também incentiva a movimentação de jogadores.

Para os jogadores: Eles vão chiar porque "querem mais segurança" e não querem ficar mudando de time toda hora. Besteira.

Isso faz com que os atletas simplesmente não tenham tempo de se acomodar. Não tem como assinar um contrato longo e ficar recebendo como estrela enquanto marca 30 pontos por temporada. O jogador teria que renovar contrato pelo menos três vezes na carreira, e jogadores acomodados não teriam mais lugar.

 5º - Acabar com a arbitragem para agentes-livres irrestritos (RFA)

Proposta mais polêmica, depois da redução dos salários. A arbitragem é a única vantagem que o atleta tem quando agente-livre restrito (aquele jogador sem contrato que ainda tem vínculo com sua franquia).

No sistema atual, nos casos em que time e RFA não chegam a um acordo quanto ao novo contrato, time ou jogador podem levar o caso à arbitragem, e o árbitro é quem decide o valor do novo contrato. Após estipulado o valor, a franquia pode (a) acatar a decisão e assinar por aquele valor ou (b) rejeitar a decisão, tornando o atleta UFA.

O fim da arbitragem tiraria esse poder do jogador, que não teria opção. Ou assina pelo contrato oferecido pelo time, ou não joga na NHL, simples assim.

Para os donos: Hahahahahahah.

Para os jogadores: Você é um jogador promissor, e é recrutado por Columbus. Você assina contrato aos 20 anos. Aos 25 anos, depois de ganhar o troféu Calder, um Hart, um Maurice Richard e dois Conn Smythe, os Blue Jackets te oferecem um aumento de 10% até os 30 anos. Você rejeita, porque não é burro, mas não tem arbitragem para te ajudar. Então você foge pra KHL pra receber $30 milhões de rublos livres de impostos, ou desiste de jogar hóquei e vira stripper.

Sério, essa é a proposta mais absurda que existe.

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O que são essas propostas? Só isso, propostas. São pontos de partida, de onde sairá a contraproposta da NHLPA. Faltam dois meses para o fim do atual CBA (15/09), e muita coisa vai acontecer até lá. Esses cinco pontos, mais a distribuição de rendas, realinhamento e outros assuntos serão debatidos por horas a fio, e esperamos chegar a uma conclusão.

Não há como negar, a vantagem é dos proprietários. Eles são bilionários, que podem cruzar os braços, declarar "locaute" e ficar muito bem sem pagar salários, partindo para alguma outra brincadeira de gente grande. Os jogadores, alguns milionários, outros nem tanto, teriam que sair do país para ganhar a vida com o esporte, não tem tanta bala na agulha para arrastarem discussões por muito tempo, e em algum momento vão ceder.

Mas dessa vez um locaute seria diferente. Embora Gary Bettman esteja do lado dos proprietários, é seu interesse prioritário que a temporada comece pontualmente. O último locaute foi um tiro no peito da NHL, que vem lentamente se recuperando desde então. Uma nova paralisação seria um tiro na cabeça, sem chance de recuperação, uma humilhação que acabaria com a liga de uma vez.

Além disso, hoje a mídia que cobre hóquei é muito mais bem informada, e os torcedores não são ignorantes. Da última vez, donos de times conseguiram colocar a torcida contra os jogadores, "aqueles milionários mercenários que brigam por meio milhão a mais ou a menos". Não hoje, com centenas de blogs especializados, que nos últimos oito anos acompanharam os proprietários se afogando nos mesmos erros. Dessa vez ninguém vai ser pego de surpresa, e os olhares estarão voltados para os homens de terno, e não de uniforme.

Não queremos nos tornar um blog de política. Não queremos usar as palavras "locaute" ou "paralisação" ou coisa assim. Em setembro, queremos falar que o training camp começa dia X, e não que a temporada começa no Clássico de Inverno.

Começou mais uma batalha entre bilionários vs. milionários. Que termine logo.

Um comentário:

Angry Master League Nerd disse...

Um ponto preocupante é que o total gasto com salários pelos times já se aproxima dos totais da época pré-lockout. Será que a estratégia do teto salarial deu errado? Se sim, em que ponto?